História |
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CONFLITOS A INSURREIÇÃO DA DIGNIDADE Foi contra tal estado de coisas que, na madrugada de primeiro de janeiro de 1994, irromperam cerca de 2.000 guerrilheiros integrantes do até então desconhecido Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Numa operação audaciosa e bem planejada, os rebeldes ocuparam San Cristobal de Las Casas (segunda cidade de Chiapas, com 90 mil habitantes), três municípios (Altamirano, Ocosingo e Las Margaritas) e vários povoados. Após 12 dias de intensos combates contra as tropas do exército mexicano, os guerrilheiros se retiram para as montanhas da selva Lacandona. Em poucos dias os zapatistas desnudaram para o mundo o outro México, o México subterrâneo, sufocado, vilipendiado e até então silencioso. Estava dado o grito pela reconquista da dignidade. "Sem democracia não pode haver liberdade, justiça ou dignidade. E sem dignidade não há nada", desabafava o EZLN. AS ORIGENS DO EZLN O EZLN, que leva esse nome em reverência ao legendário líder camponês Emiliano Zapata, não surgiu de uma hora para outra. Foram vários anos de rigorosa preparação, treinamento e trabalho comunitário junto aos indígenas e camponeses de Chiapas. Muito embora tenha sido registrado a presença de grupos armados na região desde os anos 70, foi, ao que tudo indica, no início dos anos 80 que teve início os preparativos para a formação do EZLN. Em 1989, é criada a Aliança Nacional Camponesa Independente Emiliano Zapata (ANCIEZ), passando a desempenhar um intenso trabalho organizativo entre os indígenas e camponeses. A organização é dissolvida em fevereiro de 1993, quando todos os seus dirigentes abandonam San Cristobal de Las Casas em direção as montanhas. Durante o ano ocorrem pequenos confrontos entre guerrilheiros e a polícia. Na virada do ano, o EZLN mostra sua força, fruto de anos de dedicada preparação política e militar. MAIS DO QUE UMA GUERRILHA Em seu primeiro comunicado, o EZLN colocava como principal exigência a democratização da sociedade mexicana e a condenação das oligarquias do interior que "tratam como virtuais escravos os indígenas, os quais vivem hoje em condições piores do que no tempo da colônia". Pelo enunciado, os zapatistas deixavam claro que os seus objetivos não estariam circunscritos apenas à garantia dos direitos indígenas, ainda que estes estivessem no topo da lista de reivindicações. Ficava nítida a compreensão de que a situação dos indígenas só será modificada no marco de uma grande reformulação do Estado mexicano. Assim, caía por terra o argumento inicial do regime mexicano de que a rebelião em Chiapas era nada mais do que um foco guerrilheiro integrado por estrangeiros. Durante meses o governo quis bater nesta tecla afim de convencer a comunidade internacional de que Chiapas era apenas um episódio localizado e logo os rebeldes seriam aniquilados. Era compreensível o esforço, afinal não era elegante para um país que aspirava entrar no "primeiro mundo" (ainda que pela porta dos fundos), ter um movimento armado na sua retaguarda. De início, até mesmo amplos setores da esquerda latino-americana, tanto a tradicional como a que gosta de posar de modernosa, intentaram interpretar a rebelião como uma tímida tentativa de reeditar formas de luta ultrapassadas. Os acontecimentos posteriores viriam a confirmar que são estas análises simplistas e estereotipadas que estão, de fato, ultrapassadas. O RECUO DO REGIME Logo num primeiro instante, o governo mexicano tentou ignorar os apelos dos zapatistas, procurando resolver a questão no terreno militar, no que acreditava que em poucas semanas derrotaria o EZLN e Chiapas cairia de novo no esquecimento. A primeira surpresa do governo e das elites mexicanas foi o imenso e rápido apoio obtido pelos zapatistas na sociedade civil, aliado a popularidade meteórica conquistada pelo líder do movimento rebelde, o subcomandante Marcos. Logo no dia 12 de janeiro, poucos dias após o início do conflito, cerca de 100 mil pessoas pediam, na cidade do México, a suspensão dos ataques por parte do exército. Pressionado pela sociedade e temeroso da repercussão negativa no mundo, o então presidente Salinas de Gortari aceita negociar com os zapatistas. REPRESSÃO EM CHIAPAS Em fevereiro de 1995, o presidente Ernesto Zedillo, eleito em agosto de 94, rompeu unilateralmente as negociações. O governo mexicano continuava acreditando que poderia acabar com a rebelião em Chiapas através da repressão militar. Na sua descomunal ofensiva, o exército tentou rastrear toda a região controlada pelos zapatistas e com uma ordem especial: capturar a todo custo o misterioso subcomandante Marcos, líder incontestável dos rebeldes. Ataques aéreos, uso de artilharia pesada, formação de barricadas impedindo a entrada de medicamentos e alimentos nas comunidades indígenas, tudo foi usado para aniquilar os zapatistas, sem contar as torturas e violações praticadas contra civis indefesos. A resistência do EZLN foi surpreendente, assim como os protestos vindos de todos os recantos do México e do mundo. Sob forte pressão nacional e internacional, o governo suspende a ofensiva, e em abril, volta a negociar com os zapatistas. Desde então, várias rodadas de negociações tem sido realizadas, sem, contudo, resultar em avanços significativos para a resolução do conflito. Se por um lado, o governo mexicano aceita dialogar com os zapatistas, por outro, demonstra pouca ou nenhuma vontade política para atender as reivindicações dos rebeldes, nem mesmo as mais simples e fáceis de serem postas em prática. |
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